Cidarte contemporânea

#cidarte_contemporânea
Autora:

Tamiris Vaz*

 

Hoje anoiteceu mais cedo, parece que vai chover. Poderia correr para chegar em casa em tempo de não me molhar. Corro meio quarteirão pensando onde devo ter deixado meu guarda-chuva. Faz tanto tempo que não chove na secura desse Cerrado…

Primeiro chega o cheiro da terra. É estranho sentir cheiro de terra quando se anda no asfalto. É como sentir cheiro de flores quando se olha uma fotografia de jardim. Verdade ou ilusão, o prazer desse odor me afeta.
A chuva começa. Desisto de correr. Esforço inútil. Reduzo o passo e observo as gotículas de água escorrendo sobre meus óculos, embaçando minha visão. Por que mesmo essa preocupação automatizada de não poder me molhar?
São 4 da tarde, mas as luzes dos postes já estão acesas, os faróis dos carros também. Caminho devagar me divertindo com as imagens deformadas que se deslocam pelas inúmeras lentes que se formam sobre meus óculos molhados. Penso que deveria tirá-los para ver melhor. Ver melhor. Estranho termo. Quando foi que introjetei essa hierarquia avaliativa da visão? Essas imagens, lindas, múltiplas, moventes, escorregadias, me parecem agora muito mais condizentes com a realidade de meu mundo nesse momento. Cubismo em 3 dimensões.

 

 

* Professora Doutora da Universidade Federal de Uberlândia, MG, Brasil.
E-mail: tamirisvaz@gmail.com

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